Flexibilização dos anos 90 beneficiou
os passageiros
Roberta Campassi
02/08/2006
Os
usuários do transporte aéreo poderiam ter pago
passagens 11% mais caras, entre 1993 e 2002, caso o setor não tivesse passado
por um processo de desregulamentação no período - que incluiu a abertura de
mercado e redução dos controles sobre preço.
O
benefício para o consumidor gerado pela desregulamentação do mercado de aviação
comercial foi identificado pelo estudo "Reforma regulatória e bem-estar no
transporte aéreo brasileiro: e se a flexibilização dos anos 1990 não tivesse
ocorrido?", elaborado pelo Núcleo de Estudos em Competição e Regulação do
Transporte Aéreo (Nectar), do Instituto Tecnológico
de Aeronáutica (ITA), em parceria com o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea).
A
flexibilização estimulou a concorrência ao permitir, entre outras coisas, a
entrada de novas empresas no mercado, a competição entre companhias aéreas
regionais e nacionais e a extinção dos preços de referência. Essas medidas
possibilitaram, por exemplo, a entrada da TAM - que nasceu como aérea regional
- em rotas nacionais e, mais tarde, a entrada de empresas como Gol e BRA, que
se baseiam no modelo de baixo custo. Por outro lado, dificultaram as operações
das empresas que antes detinham reserva de mercado, como Varig, Vasp e Transbrasil.

Para
mensurar os impactos da flexibilização, os pesquisadores Alessandro Oliveira,
do Nectar, e Lucia Helena Salgado e Silva, do Ipea, fizeram algumas simulações. Eles compararam as
condições de mercado durante o período de flexibilização com quatro cenários
fictícios, cada um com diferentes condições de regulação. O resultado é que,
nos cenários regulados, os passageiros pagariam até R$ 70 mais nas passagens.
Na média, o desembolso extra seria de R$ 33, um aumento de 11,3% sobre o preço
médio de R$ 290 praticado no período (calculado para
um trecho de 732 quilômetros).
Esse é um
"valor relativamente alto e que deveria ser considerado quando dos debates
quanto à formulação de novas políticas e definição de novos arcabouços regulatórios para o setor", conclui o estudo.
A
flexibilização do setor, no entanto, foi em parte revertida em 2003, quando o
Departamento de Aviação Civil (DAC), atual Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), implantou novos mecanismos de controle. "A
lenta e gradual desregulamentação foi interrompida de forma muito
negativa", diz Lucia Salgado. A pesquisadora explica que a vontade de realizar o estudo surgiu nesse período.
"Felizmente, os dados confirmaram nossa impressão: a flexibilização gerou
benefícios ao consumidor", afirma.
Em 2003,
sob o argumento de que havia excesso de oferta e concorrência predatória, o DAC
emitiu portarias que dificultavam a importação de aviões e implantou novamente
critérios de avaliação econômica para as empresas que buscavam entrar no
mercado e operar novas rotas. "Tudo isso foi motivado porque, em 2001, ápice
da desregulamentação, os preços baixaram e empresas menores quiseram entrar. Aí
acendeu luz amarela do setor", diz Lucia.
Hoje,
três anos depois, alguns desses mecanismos enfraqueceram. "As portarias
não têm mais tanta importância na prática, porque surgiram para resolver
problemas de curto prazo", diz Alessandro Oliveira.
Em
relação ao futuro da desregulamentação no mercado aéreo, as avaliações são
distintas. No ano passado, a criação da Anac fomentou
expectativas de mudanças no arcabouço regulatório.
Para
Alessandro Oliveira, um dos aspectos mais importantes é a estabilidade nos
marcos regulatórios. "O importante é que as
decisões não flutuem ao sabor do momento, da situação econômica das empresas
aéreas. É preciso que não haja dúvidas quanto ao funcionamento", diz. Ele
aponta também a necessidade de melhorar o monitoramento dos órgãos antitruste.
"Acreditamos
que o regime regulatório atual tem beneficiado a
performance financeira da aviação civil brasileira", informou a TAM, em
nota enviada ao Valor. Para a aérea, por meio da "imposição de uma
racionalização da oferta e do término dos subsídios implícitos às empresas
menos competitivas, o poder público possibilitou às empresas com melhor
posicionamento competitivo viabilizarem o melhor aproveitamento de suas
aeronaves e um ambiente de competição saudável".
Para Nick Horne, diretor comercial da British Airways para a América do
Sul, há questões regulatórias que poderiam ser
revistas. A primeira é o fato de as companhias aéreas precisarem de autorização
da Anac para operar as rotas que desejam, algo que
não acontece no mercado europeu. A outra é o controle existente no Brasil sobre
preços promocionais. "O mais importante de uma regra é que ela gere
benefício para os usuários. Aqui no Brasil, bem, eu me pergunto se isso
funciona assim", diz Horne.
A Anac e as
empresas Gol e BRA foram contactadas pelo Valor, mas
não se pronunciaram.
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