INSTITUTO TECNOLÓGICO DE AERONÁUTICA

SOLENIDADE DE FORMATURA DA TURMA 2006

DISCURSO DO PARANINFO

(...)

Ilmos. Srs. Diretores dos Institutos do CTA aqui presentes.

Demais autoridades presentes ou representadas.

Ilmos. Srs. Membros da Congregação do ITA e demais professores presentes.

Senhores pais dos alunos formados, que honraram a sociedade brasileira criando, educando e trazendo a esta casa de excelência estes seus filhos de mentes privilegiadas. O que esta solenidade representa é muito importante para todos, mas principalmente para os pais, as famílias e as pessoas que amam estes alunos. Expresso aqui meu respeito e admiração no que há de sublime, imponderável e indizível neste amor.

Alunos formados da Turma 2005 de Engenheiros do ITA, meus queridos afilhados:

Conforme vocês me ensinaram, o discurso do paraninfo representa a última aula. Para corresponder à consideração por vocês e à imensa honra que me é delegada, o ideal seria que eu pudesse nestas últimas duas ou três semanas ter desenvolvido alguma obra revolucionária para o conhecimento científico e fazer do presente discurso o prefácio desta obra. Mas, numa Matemática que soa definitivo que dois mais dois são quatro, quem sou eu para ser mais que eu e mudar, com o trabalho de algumas semanas, máximas desta ordem? Mesmo assim, quero aqui vislumbrar um curto prefácio para uma grande obra a ser acabada. Vamos combinar o seguinte:

Eu faço o prefácio, agora.

Vocês fazem a obra, a partir de agora.

(E olha que vocês têm como prazo a vida toda pela frente e, portanto, não há por que reclamar ou querer "melar").

Quero vocês empreendedores, ousados e determinados. Mas também sensatos, interpessoais, éticos e responsáveis com o meio ambiente e a sociedade. Que vocês tenham a sabedoria de ignorar o que não leva a nada e a ignorância de desejar saber para onde vamos. Vocês que foram "bixos" lá no primeiro ano (lembram-se?) e "deuses" neste quinto ano, agora vocês são vocês no horizonte do que está por vir.

Um tipo de discurso que costumo usar para apresentar o ITA a entidades no exterior, que eventualmente não nos conheçam, é dizer que esta é uma instituição pioneira, concebida na década de 40 numa iniciativa estratégica para gerar os recursos humanos que possibilitassem o aparecimento da indústria aeronáutica e aeroespacial brasileira, e apresenta duas peculiaridades que se destacam a nível nacional: o alto nível de seus cursos e o alto nível intelectual de seus estudantes.

Esta me parece uma equação simples. O crescimento brasileiro e sua sustentabilidade passa pela educação de qualidade para produzir conhecimento comprometido com o desenvolvimento tecnológico em todas as áreas. E uma escola de excelência imbuída desta missão depende do que ela oferece em termos de recursos de infra-estrutura, laboratórios, acesso a referências bibliográficas, depende da eficiência de sua administração e depende da qualidade — segundo alguns critérios pertinentes — de seus docentes. Mas também depende muito da qualidade de seus alunos. Costuma-se dizer que o ensino médio nas escolas públicas há trinta, quarenta anos era de excelente qualidade. Mas um fator importante nesta constatação, que muitos analistas negligenciam, é que naquela época menos alunos prosseguiam até o nível do ensino médio e eram, na sua grande maioria, alunos com perfil diferenciado (por exemplo, com acesso a leituras de qualidade e outras fontes de informação, com recursos para enriquecer suas experiências culturais). Nos dias de hoje, estes alunos migraram para as escolas privadas.

Meu ponto aqui foi argumentar que a qualidade do ITA depende sim do nosso esforço e competência em procurar fazer o melhor no sentido de uma educação otimizada, mas também deve muito à qualidade e preparação dos alunos que procuram nossa escola.

Vocês nos procuraram e, hoje, esta solenidade fecha a formação de vocês engenheiros.

Uma solenidade de graduação marca tanto o fim de um caminhar como o começo de uma nova caminhada. Vendo nesta perspectiva, é uma forma de despedida que, com a atitude adequada, fica sendo uma porta entre dois mundos: o que foi e o que virá.

Quanto ao que virá, ignoramos. E ainda bem, porque eis aqui uma instância em que a ignorância é um fator de felicidade. Talvez, quando Almir Klink se pôs num barco a remar para oeste e atravessar o Atlântico, se ele tivesse um GPS teria se desmotivado ou estressado pelas idas e vindas e círculos improdutivos que constituíram sua rota. O importante na vida não é que ela seja determinável de antemão e sem surpresas, mas que seja construída passo a passo como uma conquista. A topologia do devir é como a grama — vocês sabem, o campim com sua progressão de ramos entrelaçados. Se olharmos numa perspectiva histórica, com o olhar do depois, poderemos reconhecer padrões. Porém, o entrelaçar das experiências vividas no trabalho, no ócio, no dia-a-dia, nas relações com o mundo, com os outros e consigo mesmo, vai se constituindo como uma armadilha e como um ritual de libertação. Armadilha no sentido de que vivemos tamanhas atribulações (recente para vocês, por exemplo, foram os "viradões" de estudo, os intermináveis relatórios, as provas infinitas, e, por último, o bendito TG), quando sempre existiu a opção ou a tentação de deixar tudo de lado e, por exemplo, viver na praia do Bonete ouvindo Jack Johnson incidentalmente. Vocês ficaram presos a estas tribulações em troca de um ideal e de objetivos bem delineados. E agora não é que vocês ganham este diploma e o passaporte para um futuro de realizações: vocês o conquistaram.

Quanto ao que foi, é simples: acabou. Claro que o que acaba aqui desfaz-se em lembranças e estigmas mas perfaz-se em cada nuance, em cada visão, em cada sentido, em cada relação com o mundo e com as pessoas. A palavra "eu", para cada um de vocês, agora passa a ter o peso destes anos de ITA junto com tudo o mais.

Quanto ao que há de adeus nesta solenidade, cada um de vocês pense que estaremos aqui, ali, em todo lugar, e desligue o resto.

Pense que o adeus é igual ao até logo, e desligue o resto.

Meus agora colegas engenheiros da turma 06, protagonistas de uma convivência que deixará em mim uma renovação no sentido da vida e lembranças muito caras, todo meu afeto por vocês. Obrigado por estes cinco anos que passamos juntos num projeto de transformar sonhos em realidade, e obrigado por me dar hoje a honra de dizê-los a vocês.

Façam a obra que este país precisa. Façam da vida de vocês e dos que os cercaram uma obra com sentido, ética e dignidade.

Felicidade a todos e muito obrigado.

Prof. Marcos Antônio Botelho (Departamento de Matemática)