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Pesquisa FAPESP - Edição 148 - Junho 2008
Tecnologia
> Engenharia
Por dentro da embalagem
Empresa paulistana desenvolve equipamento de raios X para detectar
metais, vidros e pedras em alimentos
Marcos
de Oliveira
Provavelmente a maioria
dos consumidores não sabe, mas a trajetória de grande parte dos produtos
alimentícios existentes no supermercado passa por uma máquina que detecta
metais no local onde são fabricados. Isso acontece com o produto já pronto e
embalado para verificar se há pequenos pedaços de
peças, parafusos ou outros contaminantes metálicos
nas matérias-primas. Assim, um pacote de pão de fôrma, outro de biscoitos, uma
sopa instantânea ou ainda uma caixa de sabão em pó, por exemplo, são
averiguados quanto à presença de indesejáveis “ingredientes” metálicos. Grande
parte dessas máquinas no Brasil é fabricada pela empresa paulistana Brapenta que está prestes a lançar
um equipamento inovador para esse nicho do mercado industrial brasileiro. Ele
utiliza raios X para identificar não apenas metais, mas também pedras, plásticos e vidros, ou tudo o que saia da densidade
típica, como a de um pedacinho de osso num hambúrguer. Os materiais
inconvenientes do tamanho de até 1 milímetro poderão ser visualizados e o
produto retirado de circulação antes de sair da fábrica. O novo modelo da Brapenta, chamado de Spectra, traz componentes elaborados para tornar o equipamento mais barato e
funcional. “Ele vai custar entre R$ 80 mil e R$ 100 mil com impostos,
enquanto os equipamentos similares importados custam entre R$ 150 mil e R$ 200
mil ou mais com impostos”, diz o engenheiro eletrônico Martín Izarra, diretor-presidente da empresa.
Mas a importância do
projeto ultrapassa os benefícios que o novo equipamento trará para a indústria
do país ou para a própria empresa porque é um exemplo de sinergia entre
institutos de pesquisa e empresas e o próprio laboratório
de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)
da Brapenta. “Temos aliados tanto na área comercial
como na tecnológica porque inovar é criar uma rede de parcerias”, diz Izarra, também diretor da Associação Nacional de Pesquisa,
Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei).
Idealizado em 2003, o
projeto começou a se tornar realidade no mesmo ano com a aprovação de
viabilidade técnica no Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo. “Ali vimos que a idéia era viável”,
conta Izarra. “Depois começamos a tocar o projeto sozinhos trabalhando com uma tecnologia que não
conhecíamos.” A mudança de patamar seria trocar para a tecnologia de raios X e deixar a de campo eletromagnético até agora usada pela Brapenta, a mesma presente nas portas de banco ou prisões
para detectar metais, produto que a empresa também fabrica em menor escala. O
desafio em utilizar raios X envolve a própria geração dessa radiação e o seu
controle. Somou-se a essas necessidades a
viabilidade de uma série de agregados para que o
equipamento funcionasse. O aparelho precisava ler o produto como um scanner
traduzindo os raios X em sinais elétricos e depois converter o resultado em luz
visível numa tela, além de ser dotado de
softwares e painéis de controle.
Entre os elementos
agregados essenciais para a execução do projeto estão os cintiladores,
sensores compostos de um cristal, no caso o iodeto de césio. Por enquanto, eles
estão sendo importados do Japão e da França, com
custo ainda alto, e depois de muita negociação porque é um produto que pode ser
usado, por exemplo, em aplicações nucleares para medir radiações. Com isso,
países que detêm essa tecnologia dificultam a exportação. Para ter o produto
mais barato e feito no Brasil, a empresa firmou um contrato de intercâmbio com
o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen)
para a produção dos cintiladores. No currículo da Brapenta já conta uma boa parceria tecnológica
com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica
(ITA) em 2004 para o desenvolvimento de algoritmos, um
conjunto de soluções matemáticas elaboradas para resolver determinado
problema para outro tipo de máquina da empresa que mede o peso dos produtos ao
passar por uma esteira numa velocidade de 2 metros por segundo. A função dela é
verificar produtos que estejam abaixo ou acima do peso estipulado na embalagem.
Outro parceiro de longa data da Brapenta é o
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde os equipamentos da
empresa passam por testes de interferência El tromagnética no Laboratório de Integração e Testes (LIT).
“Em todas as parcerias nós
aprendemos com eles, mas eles também aprendem com a gente”, diz Izarra. No caso dos cintiladores
produzidos no Ipen, eles não eram usados para um
equipamento industrial. “No Ipen nós temos a
tecnologia de crescimento dos cristais para fins acadêmicos e para uso em
detectores de radiação X ou gama”, conta Carlos Henrique de Mesquita,
pesquisador aposentado do Ipen que está coordenando
para a Brapenta um projeto do programa de Pesquisa Inovativa na Pequena e Micro Empresa (Pipe)
da FAPESP. “Esses sensores convertem a radiação dos raios X em fótons de luz
que sensibilizam outros sensores chamados de fotodiodos que, por sua vez,
convertem os fótons em sinal elétrico e depois nas imagens elaboradas por um software”,
explica. Para Mesquita, o desenvolvimento realizado no Ipen
vai reduzir em 30% o preço dos cintiladores para a Brapenta.
Quando Mesquita finalizar
o projeto no início do segundo semestre deste ano, a Brapenta
vai poder comprar os cintiladores do próprio Ipen, da mesma forma que o instituto produz e fornece radiofármacos para uso em procedimentos de medicina nuclear.
“Entre as alternativas estão a criação de uma empresa
para produzir os cintiladores ou a própria Brapenta fabricá-los”, diz Mesquita. Quanto aos fotodiodos,
eles são comprados no mercado normalmente.
Empresas parceiras – No processamento das
imagens geradas dos cintiladores, a Brapenta tem como parceira a Kognitus,
instalada na incubadora de empresas da Coordenação dos Programas de
Pós-graduação de Engenharias (Coppe) da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nascida no Departamento de Ciência da
Computação do Instituto de Matemática da universidade, a empresa desenvolve
softwares de análise dos produtos e
reconhecimento de padrões de imagem. Outra empresa também incubada na Coppe e que colabora no projeto da Brapenta
é a Inovax, responsável pelo software que serve ao
painel de controle do equipamento bem como empresas como a JR
Informática, da cidade de São José dos Campos, em São Paulo, na área de
processamento digital de sinais, e a Gauss, de Florianópolis, em Santa
Catarina, que desenvolveu as resistências para alta-tensão com tecnologia de
filme espesso.
Com todas essas
colaborações a área de P&D
da empresa, composta por três engenheiros, fica com o desenvolvimento do
gerador de raios X e a integração dos sistemas, além do software controlador
de todo o equipamento. “Nossa estratégia para reduzir custos implica
desenvolver todas as partes do sistema, com parcerias, porque os outros
fabricantes simplesmente compram peças e integram e isso fica muito caro”, diz Izarra. Ele acredita que dentro de 2 anos poderá exportar o
Spectra. Com previsão de lançamento até o final do
ano, o equipamento deverá ficar instalado gratuitamente por cerca de 3 meses em
empresas parceiras, que já são clientes e pretendem comprar a nova máquina. No
total, o investimento em P&D
no produto vai atingir R$ 2,5 milhões até 2010. Desse total, cerca de 40% serão
da própria empresa e o restante de financiamentos de órgãos de fomento como a
FAPESP, no Pipe, e a Financiadora de Estudos e
Projetos (Finep) do MCT, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq), com recursos não reembolsáveis, além de benefícios fiscais ligados à Lei da Informática.
Izarra acredita que o
equipamento também será destinado a outros setores, além da indústria alimentícia
ou produtos de limpeza. O Spectra poderá ser usado na
linha de produção de fármacos para detectar se um blister
(a embalagem de alumínio que acondiciona comprimidos)
contém todos os comprimidos e se há algum danificado. Na indústria de bebidas
servirá para verificar o nível das latinhas de cerveja e refrigerantes.
Outra possibilidade é o
uso em aeroportos, com outra configuração, para verificação de bagagens. “Uma
das primeiras consultas sobre esse tipo de máquina com raios X partiu da
Infraero (Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária), porque as
máquinas que eles têm são importadas e de manutenção cara”, diz Izarra. Nesse caso, existe a necessidade de um operador
para visualizar as bagagens enquanto na máquina industrial não é preciso, porque
ao constatar um produto com problemas ela automaticamente faz a separação. A
mesma configuração para aeroporto poderá ser usada em prisões, também na forma
de scanner, para inspecionar detentos e visitantes.
Com 65 funcionários e
instalada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, a empresa tem produtos em 28
países como Estados Unidos, Espanha, Irã, Egito, Angola e África do Sul. São
países que importam diretamente ou por meio de empresas integradoras, que
instalam todo o conjunto de máquinas e equipamentos de uma fábrica, por
exemplo. A empresa também tem representantes em todos os países da América
Latina. Além das máquinas detectoras de metal para a
indústria alimentícia, a empresa vende no exterior equipamentos para inspeção
na área de mineração, usadas na verificação das matérias-primas da produção do
cimento, porque pequenos pedaços de metal podem pôr a perder o moinho onde se
prepara esse produto.
Caminhos próprios – A história da Brapenta começa quando Martín Izarra
durante a graduação em engenharia eletrônica na
Argentina, país de nascimento, fez um projeto para sistemas de medição de gás
carbônico (CO2) em grandes tanques por meios
eletrônicos. “A empresa, subsidiária da General Dynamics, que produzia peças para reatores nucleares e
produtos químicos, gostou, depositou a patente e me pagou uma quantia
suficiente para comprar um carro, e ainda me contratou. Comecei trabalhando na
área de P&D deles inclusive nos Estados Unidos”,
lembra Izarra. “Mas passei pelo Rio de Janeiro e
resolvi ficar. Antes tirei férias e vim estudar o
Brasil. Adotei o país e me naturalizei.”
Em São Paulo Izarra foi gerente de projetos da AEG Sistemas, empresa
alemã de automação industrial, e logo depois resolveu montar uma subsidiária da
empresa Penta da Argentina
no Brasil. Com um dos cinco sócios da empresa argentina, ele montou, em São Paulo, a Brapenta em 1979. O primeiro produto foi um detector de
metais para área de mineração. “Mas, 3 anos depois, a tecnologia já estava
obsoleta. A velocidade das inovações é muito rápida e resolvi comprar a parte
do sócio e trabalhar em cima de tecnologias próprias para acompanhar a
velocidade do desenvolvimento tecnológico. Isso foi e está sendo um processo de
aprendizagem.”
Os Projetos
1.
Desenvolvimento de cristal de CSL(TI) e
plástico cintilador para fins de inspeção em tempo
real com raios X em equipamento nacional
2.
Sistema de inspeção por raios X e inovação de equipamentos para
alimentos seguros
3.
Sistema de inspeção por raios X
Modalidades
1.
Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas e
Micro Empresas (Pipe)
2.
Programa de Subvenção Econômica a Empresas
3.
Programa de Capacitação de Recursos Humanos (Rhae
Inovação)
Coordenadores
1.
Carlos Henrique de Mesquita – IPen/Brapenta
2.
Martín Izarra – Brapenta
3.
Alberto Suárez Velasco e Martín Izarra – Brapenta
Investimentos
1.
R$ 94.018,00 (FAPESP)
2.
R$ 1.283.160,00 (FINEP)
3.
R$ 257.099,52 (CNPq)
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