
Acesso a aeroportos define destino de novatas
Roberta Campassi, de
São Paulo
11/02/2009
O acesso que a Gol teve aos principais aeroportos do país na época de sua
criação foi determinante para o sucesso da companhia e também para a queda dos
preços de passagens, em decorrência do aumento da concorrência. Essas são
conclusões de um estudo concluído neste ano pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica
(ITA) a pedido da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac),
que, embora analise o caso da Gol entre 2001 e 2004,
apresenta debates semelhantes aos do atual momento do setor aéreo: entrada e
crescimento de novas empresas (como Azul e Webjet);
uso de aeroportos centrais e medidas para aumento da concorrência e redução de
tarifas.
Elaborado pelo Núcleo de
Economia dos Transportes, Antitruste e Regulação (Nectar),
do ITA, o estudo mostra que logo no primeiro ano de operações, em 2001, a Gol
alcançou 10% de participação em Congonhas, aeroporto paulistano que é o mais
cobiçado do país. No fim daquele ano, a companhia aérea conseguiu entrar no
Santos Dumont, aeroporto central do Rio de Janeiro - mas não sem antes
enfrentar a resistência das concorrentes da época TAM, Varig e Vasp. Em 2002, a
Gol já dominava 10% dos voos na movimentada
ponte-aérea Rio-São Paulo. A aérea também teve acesso
ao aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte. Na época, as autorizações eram
dadas pelo antigo Departamento de Aviação Civil (DAC) - hoje substituído pela Anac - que não seguia regras definidas para distribuição de
espaços em aeroportos.
O acesso ao
"filé" da estrutura aeroportuária conjugado
a uma estratégia de "baixo custo e baixas tarifas" levaram a Gol a
abocanhar participação crescente nos primeiros anos de vida, mostra o
levantamento. Ela saiu do zero, em janeiro de 2001, para quase 30% no fim de
2005. Outras empresas não tiveram a mesma ascensão. É o caso da Webjet, criada em 2005, que não conseguiu crescer nos dois
anos seguintes e só iniciou uma rota ascedente depois
que foi comprada pela operadora de turismo CVC, em junho de 2007. Além de terem
aplicado táticas diferentes - sendo que as da Gol
foram mais eficientes -, a Webjet não conseguiu
operar em Congonhas, Santos Dumont e Pampulha.
"O acesso aos
mercados lucrativos constituídos pelos aeroportos congestionados pode ser fator
crucial de distinção entre o sucesso e o fracasso da entrada de uma nova
empresa no mercado", afirma o estudo. Para seu autor e coordenador do Nectar, Alessandro Marques de Oliveira, o acesso à
infra-estrutura é também um dos principais fatores que determina o grau de
concorrência entre companhias aéreas.
A presença da Gol em aeroportos importantes também fomentou uma redução
geral de preços, uma vez que as concorrentes TAM, Varig e Vasp ficaram mais
expostas à operação da nova companhia. Entre 2001 e 2003, segundo o estudo, a
Gol conseguia ter custos em média 34% mais baixos que os das rivais e seus
preços (medido pelo "yield", ou seja,
quanto cada cliente paga para voar um quilômetro) eram em média 29% menores.
O estudo do Nectar estima que a presença da Gol
em Congonhas fez os preços médios em voos diretos
caírem R$ 100,7 entre 2001 e 2004. Nesse período, a aérea detinha 14% de
participação em voos diretos no aeroporto. Mas, se
essa fatia tivesse sido de 5% ou 1%, as reduções de preço também teriam sido
menores, de R$ 87,8 e R$ 83,2. "Quanto mais perto dos rivais, maior a
competição", afirma Oliveira.
As discussões do passado
se repetem agora. Em 2001, mal havia começado a voar, a Gol criticou Varig e
TAM por fazerem oposição no DAC à entrada da nova empresa no Santos Dumont.
Hoje, a Azul tenta na Justiça operar no mesmo aeroporto e outras empresas como Webjet e OceanAir também defendem
a abertura do local, sendo que a TAM é contra. "Aeroportos no centro das
grandes cidades, como Congonhas, Pampulha e Santos Dumont, são muito mais
práticos e atraentes para os passageiros, por isso temos interesse neles",
afirma Pedro Janot, presidente da Azul.
A Anac
vem tomando diversas medidas para abrir aeroportos e elevar a competição, com o
argumento de que o consumidor será, assim, beneficiado com preços menores e
serviços melhores. O órgão editou, em 2008, regra para permitir a operação de
mais empresas em Congonhas a partir de 2010 e defende o fim das barreiras no
Santos Dumont e Pampulha, hoje fechados a certos tipos de voo.
A agência tenta extinguir os preços mínimos tabelados para passagens
internacionais, mas vem encontrando oposição da TAM.
"O setor aéreo é
tradicionalmente um oligopólio. Por isso, quando surgem empresas menores, bem
estruturadas, o regulador enxerga nelas uma chance de chacoalhar o mercado para
beneficiar o consumidor", diz Oliveira.
As reduções de preço já
são vistas nas rotas que a Azul opera desde dezembro. A empresa começou
oferecendo passagens de Campinas a Curitiba, por exemplo, por R$ 129 e já
baixou para R$ 59. A TAM cobra R$ 39 e a Gol, R$ 49, quatro ou cinco vezes mais
do que cobravam antes de a Azul chegar.
Azul aumenta malha e
vai iniciar operações no Rio a partir do Galeão
De São Paulo
A Azul vai começar a voar
para o Rio de Janeiro, mesmo que seja a partir do Galeão e não do Santos
Dumont, o aeroporto central da capital carioca que hoje está limitado a certos
tipos de operação. Além do Rio, a companhia aérea vai incluir mais quatro
cidades em sua malha, todas com ligação para Campinas (SP), entre o dia 18
deste mês e o início de abril: Fortaleza, Manaus, Recife e Navegantes (SC).
A empresa ainda
aguarda o resultado de uma ação na Justiça já em segunda instância, para voar
no Santos Dumont. Se não obtiver autorização judicial, vai iniciar em 1º de
abril cinco voos diários de Campinas para o Galeão,
onde já solicitou horários de voo. "A nossa
expectativa é conseguir operar no Santos Dumont e nem precisar começar a voar
no Galeão, mas estamos preparados para os dois cenários", afirmou Pedro Janot, presidente da empresa. Até março, a Agência Nacional
de Aviação Civil (Anac) também deve decidir sobre a
abertura do Santos Dumont - atualmente, o aeroporto só está aberto para voos com destino a Congonhas e voos
feitos com turboélices de até 50 assentos.
A Azul faz hoje 30 voos por dia, ligando Campinas a Salvador,
Porto Alegre, Curitiba e Vitória. Com a ampliação da malha, serão mais 26
operações diárias. A companhia tem cinco aviões e mais dois em fase final para
entrar na frota. Até julho, serão 12, todos modelos 190 e 195 da Embraer. Janot disse que aguarda para a semana que vem a assinatura
do contrato de financiamento com o BNDES para parte dos aviões. A Azul, que também negocia financiamento com o Banco do Brasil,
estuda ter entre 12 e 16 jatos até o fim de 2009.
A companhia, que estreou
em 15 de dezembro, disse que nos primeiros 15 dias daquele mês transportou 11
mil pessoas, com ocupação média de 45%. Com esses números, era a sexta do
mercado. Já em janeiro, foram 45 mil passageiros, com ocupação de 59%. "Em
fevereiro, vai ser mais do que isso", disse David Neeleman,
fundador da Azul. Na segunda-feira, segundo ele, a empresa bateu o seu recorde
de vendas num dia, com 4,3 mil bilhetes comercializados.
Neeleman afirmou que o plano é
alcançar o lucro no segundo semestre, apesar da verdadeira guerra tarifária que
a empresa enfrenta com as líderes de mercado TAM e Gol. "Agora é difícil.
Ainda temos poucos voos e, com as tarifas baixas, o
avião precisa voar mais cheio para dar lucro", diz. Desde o início das
operações, a Azul baixou seus preços. Além disso, vem oferecendo transporte de
ônibus gratuito de Alphaville e São Paulo para
Campinas e inicia esta semana uma promoção que dará descontos nas passagens.
(RC)
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